sábado
Google Art Project e as Polêmicas que Vêm Aí
Nessa semana, o Google apresentou ao planeta mais uma de suas ferramentas revolucionárias, disseminando conhecimento, encurtando distâncias e trazendo novas alternativas para diversão e estudo. Mais do que isso: deu também outro importante passo na direção de consagrar-se como o grande repositório de todo o conhecimento do nosso tempo, nos seus mais diversos campos e variantes. Dessa vez, o foco foi a arte e como nos relacionamos com ela.
Trata-se do chamado Google Art Project, uma espécie de nova etapa do já popular - e às vezes polêmico - Google Street View, por meio do qual se pode passear pelas ruas de grandes cidades com visão 360o. Pois agora podemos perambular virtualmente não apenas pelas ruas, mas também dentro de alguns dos maiores museus do mundo, olhando para aonde desejarmos e fazendo o trajeto que escolhermos. Museus estes que estão milhares de quilômetros distantes uns dos outros e de onde nos localizamos. Ah, e tudo sem precisar pagar ingresso ou sequer sair de casa. A primeira etapa inclui ícones como Metropolitan, MoMA, Tate, Reina Sofia, Van Gogh, etc.
Mais do que isso, o Art Project passou também a promover a digitalização em altíssima definição e a disponibilzação de acesso livre ao acervo desses grandes museus. Basta clicarmos na obra para que ela surja enorme na nossa tela, podendo ainda ser ainda ampliada ou analisada por outros ângulos. Nessa etapa inicial, foram digitalizadas mais de mil obras, de mais de 400 artistas.
Na verdade, diversos museus já oferecem serviços similares. No Brasil, por exemplo, o Museu Iberê Camargo, em Porto Alegre, já contempla a possibilidade de passeio virtual por suas galerias. O que conhecemos nessa semana, contudo, leva essa tendência a patamares até então inimagináveis.
O objetivo do Google parece mesmo ser centralizar numa única ferramenta todos os principais museus do planeta. E, desse modo, tornar-se também o banco de dados de todas as obras neles disponíveis, com reproduções em definição que permite apreciar detalhes imperceptíveis a olho nu. Mais, visitantes virtuais podem criar suas próprias coleções no site, selecionando e agrupando eletronicamente obras que hoje estão espalhadas em continentes diferentes. Tudo na mesma linha do que o Google já vinha empreendendo com a digitalização de acervos de bibliotecas no mundo todo.
Muito embora todos ainda estejamos maravilhados com essas possibilidades, certamente também muita polêmica vem por aí. Um dia após o anúncio do projeto, o The Telepgraph criticou o direcionamento estético do que é ou não reproduzido digitalmente em cada museu, pondo em dúvida o caráter democrático da ferramenta. O jornal demonstrou também receios quanto ao futuro dos museus se essa iniciativa realmente prosperar (tal qual ocorreu no mercado da música) e ceticismo ao comparar a experiência virtual com uma visita real aos museus. De outro lado, pouca atenção ainda foi dada para os reflexos jurídicos dessa ferramenta, principalmente no que se refere ao direito de autorizar ou não a reprodução e a publicação digital de obras no Google Art Project.
Quando a obra já caiu em domínio público (basicamente quando o autor já faleceu há mais de 70 anos) a situação é mais simples: as reproduções são livres e exige-se apenas que seja identificada a autoria e respeitada a sua integridade original. Nesse caso, para viabilizar juridicamente o Art Project o Google geralmente precisaria sentar à mesa apenas com o museu.
Contudo, se o prazo da proteção autoral ainda não se esgotou, a situação é um pouco mais complexa e outros interesses podem aflorar. Isso porque museus, em geral, não são titulares de direitos de autor sobre as obras que expõem, mas apenas têm a propriedade sobre o objeto físico em que elas se concretizam. Ou seja, normalmente não cabem aos museus determinarem sobre a reprodução das obras que expõem. Somente os artistas ou os seus sucessores (titulares de direitos autorais) podem autorizar - ou proibir - cópias de suas obras, diretamente ou por intermédio de associações especializadas. Será que todos abrirão mão de serem remunerados por tais cópias digitais de alta resolução? Ou será que essa conta está contemplada no modelo de negócio do Google, direta ou indiretamente?
Em resumo: mais um debate está aberto. Novamente o Google revoluciona e enriquece nossas experiências digitais. E mais uma vez alguns direitos tradicionais - e o sustento dos que deles dependem - ficam potencialmente ameaçados em prol de um mundo com mais acesso à informação e ao conhecimento. Vêm aí novos tempos na contemplação da arte. Mas certamente também vem aí muita polêmica...
Marcadores:
artes plásticas,
direitos autorais,
domínio público,
Google,
Google Art Project,
reprodução
